Insights brasileiros no Colorado:
ABRHidro nasce da ideia de pesquisadores preocupados com a gestão da água no Brasil
O conflito pela água era emblemático nos Estados Unidos do século passado, quando um grupo de jovens professores brasileiros desembarcou para fazer doutorado na Universidade do Estado do Colorado, na década de 70. A experiência era desafiadora e, ao mesmo tempo, promissora na esfera científica. Nessa época, as universidades americanas discutiam intensamente o uso da água para irrigação, geração de energia, estudos para solucionar os problemas relacionados a abastecimento, inundação e criação de reservatórios.
A experiência mostrava que um eficiente processo de regularização estava intimamente ligado à engenharia de planejamento, tornando o momento favorável para a realização de boas safras de estudos nessa área. Os doutorandos Jerson Kelman, Carlos Eduardo Morelli Tucci e Francisco Luiz Sibut Gomide sonhavam em trazer para o Brasil as experiências vivenciadas naquele intenso núcleo de estudos, onde a gestão dos recursos hídricos estava sendo bem implementada, gerando resultados satisfatórios.
O Brasil tinha pontos críticos em comum com os Estados Unidos no cenário da água e poderiam ser estimulados estudos, leis e soluções de gestão. Porém, ainda não havia uma plataforma de estudos onde os hidrólogos brasileiros pudessem se encontrar, trocar experiências e informações científicas.
Os jovens, que futuramente se tornariam presidentes da ABRHidro, moravam num conjunto residencial destinado aos alunos da universidade. Gomide já havia concluído o doutorado e retornado para o Brasil, quando em certa ocasião, em meio a uma conversa descontraída durante a festa de aniversário de um dos filhos, eles conversaram sobre criar uma associação de hidrologia e recursos hídricos no Brasil.
Ao regressarem para o país, eles conversaram com Rubem Porto, que na época já era professor na Universidade de São Paulo (USP) sobre o projeto. Kelman lecionava na Coppe (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde encontrou ressonâncias dessa ideia com outros professores da área de hidrologia e recursos hídricos.
Em sua essência, a associação deveria ter dois principais propósitos: editar uma revista de natureza científica de alto padrão, com bons revisores, em que os profissionais da área de recursos hídricos e hidrologia pudessem publicar trabalhos sobre os temas de interesse da área pertinentes ao Brasil, não a outros países. Os assuntos seriam especificamente relacionados aos desafios na área de hidrologia e recursos hídricos, com assuntos sempre de natureza técnica.
A ideia era também organizar evento científico a cada dois anos, que reunisse professores e profissionais estudantes de hidrologia e recursos hídricos no país, onde seriam apresentadas boas safras de trabalhos. O primeiro evento aconteceu em 1977, na Coppe, com o nome de Simpósio de Hidrologia e Recursos Hídricos, ocasião em que foi fundada a então Associação Brasileira de Hidrologia e Recursos hídricos.
Antes disso, Kelman, Gomide e outros participantes já haviam alinhavado possíveis nomes para a primeira diretoria da associação. Foi elaborado o estatuto baseado no estatuto de uma associação de engenharia naval e, no momento de escolher a primeira diretoria, eles achavam que seria um sacrifício, que ninguém gostaria de participar desse primeiro corpo diretor. Para presidir a associação, eles acharam que seria melhor uma pessoa respeitada e com experiência nesse setor, até porque eles eram todos muitos jovens na época. Foi convidado o professor Nelson Pinto, na época docente sênior na área de hidráulica da Universidade Federal do Paraná.
Para surpresa da turma, durante o simpósio a associação despertou interesse de diversos docentes de outras agremiações o que gerou um conflito político na época, inclusive com candidatura de chapa concorrente. Mas na eleição, a chapa do professor Nelson Pinto foi vencedora e desde a sua fundação, a cada dois anos a ABRHidro realiza um simpósio e elege uma nova diretoria, sempre nos anos ímpares. Em dado momento, foi necessário excluir a palavra Hidrologia do seu nome, ficando apenas Associação Brasileira de Recursos Hídricos. Essa foi uma maneira encontrada de não dar uma aparente impressão de que os profissionais ligados à hidráulica seriam excluídos.
Intercâmbio de conhecimento
A partir da fundação, pesquisadores, professores, estudantes e técnicos passaram a compartilhar conhecimento, experiências e a apresentar possibilidades com aos órgãos gestores brasileiros. A associação tinha um intercâmbio bem estreito com departamentos de recursos hídricos do estado de São Paulo, por exemplo, onde havia gestores receptivos para novos estudos, bons indicadores e possibilidades técnicas.
Havia muita troca de conhecimento com pesquisadores que traziam experiência dos Estados Unidos. Flávio Terra Barth, um dos nomes proeminentes na história da ABRHidro, conduziu diversos assuntos de relevância internacional com articulação junto a órgãos paulistas. Ele era um grande pensador, entendia que a associação deveria ter um papel relevante não só nos aspectos técnicos, mas fundamentalmente nas questões institucionais. Ou seja, sabia que as instituições transformariam em realidade as técnicas, teses e descobertas feitas no âmbito acadêmico, e a ABRHidro poderia supri-las de informações científicas.
O simpósio de Salvador, realizado em 1987, foi um momento importante em que a associação começou a dar ênfase a temas institucionais. Flávio insistia que o Brasil precisava ter uma lei de recursos hídricos e deu início a uma série de discussões sobre gestão da água que durou dez anos, até que em 1997 fosse promulgada a Lei das Águas, originada com base em instruções da ABRHidro. Na época o Rubem Porto e a Mônica Porto tiveram papel relevante nessa ação. Mais tarde, a associação também teve participação fundamental em outros processos no país, como a criação da Agência Nacional de Águas (ANA), por exemplo, protagonizando debates tendo membros da sua diretoria liderando os trâmites de criação da agência.
Flávio chegou a criar um grupo de discussão dentro da área de recursos hídricos utilizando a Internet, recurso ainda muito incipiente no Brasil dos anos 80. Esse grupo é o ABRHidro e gestão, movimentado por debates acalorados sobre diferentes questões técnicas e políticas. Vale destacar que o prêmio máximo da ABRHidro chama-se Flávio Terra Barth em memória a essa pessoa que liderou tantos assuntos importantes dentro da associação, provocando debates e se dedicou com afinco à estrutura de gestão brasileira na área de recursos hídricos.
Reputação
No geral, as associações tendem a cair de produção, desviando-se para caminhos nem sempre qualificados com sua origem. Mas a ABRHidro tem se mantido fiel aos princípios da ética profissional, fiel à meritocracia, premiando bons trabalhos no ponto de vista técnico-científico, e isso dá satisfação para pessoas que estão engajadas desde a sua fundação, há 48 anos.
Os trabalhos apresentados nos simpósios são reconhecidos pela classe tomadora de decisões e vistos com respeito quando se fala que a procedência é da ABRHidro. Os estudos sempre indicam soluções para determinados problemas. Tucci, professor e atualmente autor de mais de 500 artigos científicos e capítulos em livros, reforça que a associação continua fiel ao propósito de ser um ambiente de compartilhar conhecimento, livre de corporativismos empresariais e partidarismos políticos:
- A ABRHidro continua firme como um fórum de conhecimento que nunca teve político como presidente, nem pessoas em exercício de cargo federal. Isso reforça seu caráter de independência, de associação sempre à frente do seu tempo criando padrões de conhecimento. Quando me perguntam qual o posicionamento da ABRHidro em relação a determinados assuntos, eu digo que ela não se posiciona, apenas se manifesta por meio das tradicionais cartas consensuais entre sua diretoria.
Ele esclarece que, quando a associação foi criada, não a imaginaram como um órgão de sucessão corporativista. – “O Brasil é um país de permanente turbulência, onde não basta você ser honesto. Você precisa a todo instante provar que é honesto. Por isso a vontade de ver algo de qualidade que não encontravam no país nessa época”, diz.
Jerson Kelman, hoje presidente da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), compartilha com Tucci a visão de que a ABRHidro é um exemplo de associação politicamente neutra. Na época da fundação, a falta de espaços para o exercício do livre debate fazia qualquer oportunidade de diálogo ser transformado em palco para discussões políticas, foi aí que surgiu um dilema com duas linhas ideológicas dentro da associação: enquanto um grupo queria usar o espaço para fazer política sobre os rumos do Brasil, outro via a ABRHidro exclusivamente como entidade técnica e politicamente neutra.
Os fundadores sempre foram dessa segunda corrente, embora cada um tivesse suas convicções político-partidárias bem nítidas, eles não usavam o espaço da associação para discuti-las. O foco eram as questões técnico-científicas, que não deveriam ser ideologizadas. Jerson Kelman acredita que a associação obteve mais conquistas do que fora vislumbrado por aquele pequeno grupo de jovens professores, na década de 70, do qual ele fazia parte.
- O saldo de vitórias é positivo, hoje existe uma geração de especialistas na área de recursos hídricos e o país teve avanços nítidos nessa área, ainda que em passos lentos. A essência técnica que ainda hoje existe na Lei das Águas e na Agência Nacional de Águas é da ABRH, observa Kelman.
Benedito Braga, professor da USP e hoje secretário de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado de São Paulo, cursava doutorado na Universidade de Stanford na época que a ABRHidro foi fundada, juntando-se posteriormente ao grupo. Eleito presidente da associação em 1991, ele fez várias visitas ao governo federal para dar visibilidade ao setor de recursos hídricos, sempre apoiado pelo Flávio Terra Barth. O resultado foi a criação de uma legislação própria de recursos hídricos para o estado de São Paulo, que acabou sendo pioneiro na implantação de uma lei própria.
- Ela precedeu a Lei das Águas, que seria promulgada anos depois em âmbito nacional. Esse trabalho só se concretizou, de fato, devido à vontade política, embora tenha contado com ação efetiva da ABRHidro em parceria com outras entidades, como Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (ABAS), Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES) e Associação Brasileira de Irrigação e Drenagem (ABID). Antes disso, não existiam diretrizes no país para fazer a gestão das águas, a não ser o domínio estadual ou federal dos recursos hídricos, mas sem qualquer definição de regras de como o uso deveria ser feito. Havia a ideia, por exemplo, de que a melhor forma de fazer a gestão era utilizar a bacia hidrográfica como unidade de planejamento, mas era necessário criar meios institucionais e administrativos de tornar isso praticável.
De acordo com Braga, a ABRHidro teve momentos importantes na criação dos mecanismos legais e institucionais para atender a essa demanda, mas hoje os gestores públicos precisam estar mais atentos para levar isso adiante. Por isso, a associação precisa estar mais próxima dos tomadores de decisões políticas, integrando essa elevada qualidade técnico-científica a uma instância de natureza política, onde burocratas políticos participem dos nossos eventos e ouçam o que é apresentado. Contudo, sempre mantendo a imparcialidade e independência.
Nesse aspecto, deve receber atenção a forma adequada de linguagem, que precisa ser mais acessível e assimilável para os tomares de decisão, sem prejuízo ao trabalho acadêmico. A linguagem hermética da academia precisa ser simplificada, sem perdas de conteúdo.
- Sou um otimista inveterado com o futuro da ABRHidro, por acreditar que ela tem condições de se engajar mais com o sistema político-administrativo, sem prejuízo da sua razão de ser, gerando conhecimento, fazendo network com seus associados e atuante nas pesquisas, diz Braga.
Dessa maneira, a associação pode tratar de alguns temas técnicos que muitas vezes estão distantes ou na contramão do senso comum, ou seja, não são assimiláveis ostensivamente por grande parte das pessoas. Jerson Kelman acrescenta:
- Para o Futuro, a ABRHidro pode tentar eliminar alguns mitos do senso comum que na verdade são errados, esclarecendo a sociedade sobre pontos equivocados e ampliando seu papel educativo na esfera dos recursos hídricos no país.
Tucci presume que todas as ações implantadas levam um determinado tempo de maturação. Ele tem esperança de melhoras no processo de gestão efetiva de recursos hídricos, o problema é que o país está sempre em turbulência política e isso gera instabilidade para as ações na área técnica. O país precisa de investimentos contínuos na área de pesquisas relacionadas à água e liberar os recursos previstos para os trabalhos de campo.
- Precisamos conhecer melhor o comportamento dos nossos biomas. Temos obtido avanços no conhecimento de informações para a gestão de recursos hídricos, mas não nos desenvolvemos cientificamente. No comportamento hidrológico, ambiental e meteorológico desses biomas, são necessários estudos para conhecer melhor suas potencialidades, impactos e sustentabilidade. Esses estão entre os pontos mais importantes dos níveis básicos de ciência para compreensão do sistema climático-hidrológico, seus impactos na realidade brasileira, se as secas são periódicas ou variabilidades.
Além de vários outros temas que requerem atenção nas pesquisas, entre eles a previsão sazonal e de curto prazo de variáveis hidrológicas, a gestão ligada à agricultura e energia, o impacto e sustentabilidade do desenvolvimento urbano integrado, a disponibilidade hídrica e o monitoramento da qualidade da água no Brasil ainda são deficientes e precisam de muito mais informações, principalmente a respeito de cargas difusas que
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